
A diferença entre o jovem e o adulto é que enquanto o primeiro vai levando a vida com a sacola carregada de sonhos acreditando que pode realizar a maioria deles, o adulto resume tudo numa bolsa, já os têm sob medida e restritos à realidade que conseguiu para si. É tudo uma questão de expectativas x frustrações e sucessos. À medida que vamos crescendo e adquirindo responsabilidades e anseios cada vez maiores, vamos entendendo a dificuldade de atingir nossos sonhos e mesuramos o que queremos e o que podemos ter. Isso é crescer. Por mais frustrante que pareça, é inevitável e pode quem sabe, promover os sucessos que tanto planejamos.
Revolutionary Road é uma ficção. Dirigido por Sam Mendes, trata da vida do casal representado por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. O casal jovem, vivendo nos subúrbios americanos da classe média, se depara com sua vida e com a que pensaram em levar um dia. E surgem os conflitos naturais.
O que interessa nesse filme, além das interpretações de todos os atores e da fotografia palatável, é o enfrentamento que o tema do filme propõe. Quem nunca se questionou como a vida seria, como será? Quem nunca almejou grandes objetivos e viu que na hora H tudo toma outras dimensões? Nada contra os sonhos, que carrego vários comigo, mas há sempre frustração quando se sonha demais.
Encontramos aqui um círculo social muito bem construído que universaliza a trama: os vizinhos, os colegas de trabalho, os filhos. O mundo que cerca os protagonistas é tão importante e diz tanto quanto suas interpretações; é o contexto que incomoda, que exemplifica ao espectador a recusa à satisfação. E somos carregados em discussões ácidas construídas com uma intimidade natural do casal de atores, os encontros dos secundários com eles e vamos percebendo situações que vivemos no dia a dia. É um texto que prescinde de temporalidade, de época.
Ainda assim, Revolutionary Road é ambientado no início do século 20 sem crise americana. Uma geração de mulheres submissas, no velho conhecido espaço machista recebe este casal sedutor e inteligente que se apregoa diferente dos demais, ainda que viva a mesma realidade coletiva, da mesma forma. A insatisfação culmina num desmembramento da relação perfeita e encontramos no casal a verdade que não queremos ouvir: o contentamento e a decepção.
É também um filme que fala sobre a coragem e o desespero e vemos uma linha tênue muito bem traçada entre os extremos. Filme que nos apaixonamos de cara, com um início profundamente sedutor que nos leva pelas entrelinhas do roteiro e quase não acreditamos no rumo dos acontecimentos. Vale cada prêmio.
Ficha Técnica
Título ridículo em português: Foi Apenas um Sonho
2008, 119 min.
Diretor: Sam Mendes
Atores (que eu lembro o nome):
Kate Winslet
Leonardo DiCaprio
Kathy Bates
Michael Shannon
Marcadores: Cinema
Lá estava ela, no lugar certo, no momento certo quando mais duvidava de tudo. Enquanto procurava respostas, distraindo-se pelo caminho, estava numa noite em casa, numa dessas noites que não querem dizer nada, que são só estrelas escondidas em pingos de água.
Era uma calmaria de cochilar no sofá. Na tv uma comédia romântica das de sempre, no estômago um rebuliço sem fim e nada de pensar, mas frases rondavam em sua mente... beije sempre... viva cada dia como se fosse o último. Já pensou nisso? Viva cada dia como se fosse o último... muito difícil! Porque ela pensava que não poderia ainda viver cada dia como se fosse o último porque estava ainda se preparando para viver assim. Mas, ao tempo que vivia se preparando, nunca estava pronta para simplesmente viver sem os preparos do improviso. E que momento melhor para viver na abundância da vida que não a juventude? Mas e os recursos, as responsabilidades do dia a dia que são uma parte da vida mas nunca aquela vida que queríamos?
Neste vaivém, estrondos na janela, luzes no céu. Apreensiva da grande cidade, pensou o pior: não eram trovões apesar da chuva e do frio; seriam tiros? Mas, com luzes? Intrigada, foi à janela e quando abriu foi inundada de fogos coloridos que riscavam o céu. Era um barquinho no mar, numa noite chuvosa e vazia de pessoas, mas então cheia, imensa e inteira entre água, luz e fumaça. As cores apareciam num ritmo e transição como um reveillon particular. Imagine só! E o barquinho no raso mesmo, bem próximo do poeta, bem acessível a ela, janela única num mar de prédios. Como um contrato, uma poesia, um romance; ode a uma pessoa que sozinha, lembra de vários.
Os fogos espalharam uma alegria de confusão; sensações e não entendimento. A menina ficou deslumbrada com as luzes que sutilmente lhe traziam as noites de São João em família e, ao mesmo tempo, como num filme em que a mocinha entende sua missão, ela compreendeu aquele pedacinho de tempo e riu tranquila, feliz: não podia resolver nunca suas agonias ao mesmo tempo, mas teria tempo suficiente para se distrair e viver enquanto isso.
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É muito chato dizer 'as pessoas que passam por nossa vida' etc etc... as pessoas não estão para nos servir, para nos prestar favores ou viver apenas enquanto estão por perto. Já tem um tempo que eu fico pensando em escrever alguma coisa sobre Xande, mas não é que seja difícil, só não sei o que escrever sem diminuir tudo o que esse garoto foi pra mim.
Não queria nada melodramático, porque ele era uma das pessoas mais alegres e animadas que conheci... e que ria das minhas besteiras. Também não queria ficar tecendo trezentos elogios, mas é bom enfatizar como ele sempre foi generoso e como nos dávamos tão bem. Rolava uma certa ingenuidade, uma natureza franca e tranquila, um querer bem inato. Claro que quando alguém nos deixa só pensamos nas qualidades e minimizamos os defeitos, mas o fato talvez seja que, mais importantes do que celebrar o que ele tinha de bom era ver que seus 'defeitos' eram como os confetes em cima de um bolo... ficam doces demais, mas nem tudo é perfeito e a gente come assim mesmo.
Eu já perdi pessoas antes, tios, avós... que me deixaram uma saudade incrível e que sofri como nunca e com Xande não foi diferente, mas além de ser muito repentino, ele era como eu, jovem, saudável, com aquele clichê do futuro promissor. Não foi doença, não foi idade, não foi nada além de um acidente estúpido, fruto provável de uma irresponsabilidade de um inconseqüente.
O fato é que hoje morando sozinha penso muito nesse rapaz, nesse meu melhor amigo que topava ir a praia e escapulir do trabalho quando dava tudo errado; com quem trocava problemas e discutia soluções surreais para as coisas. Xande era meu confidente e vice-versa... conversávamos com leveza nossas crises e ríamos do nosso modo ridículamente romântico de pensar certas coisas. Sei que se ele ainda estivesse vivo, já teria vindo aqui curtir esse Rio de Janeiro comigo.
Volta e meia penso em Télis (Teles) que me veio de presente ao namorar uma amiga. Aí não tinha tempo ruim e eu sempre pude contar com ele, mesmo sem nem precisar. Xande é esse menino que me deixa saudades eternas e aquele desejo de tê-lo participando de um monte de coisas. E Xande não passou pela minha vida... fui eu que tive o prazer de viver um pouco com ele e até hoje tô puta dele ter ido embora sem se despedir. Eu não sei... mas um texto nunca fará jus a nada nem a ninguém né... mas como esse espaço é meu e quem manda nele sou eu... segue meu carinho por Xande pra sempre carregado por aí. Sorte vou ter se encontrar outro parecido com ele.
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Hoje está fazendo dezoito graus, venta e chove. Já estou me tremendo, tentando decidir em que momento vou levantar da cadeira pra pegar as meias e sair correndo pra debaixo do edredon. Fico imaginando o frio que devia fazer no Everest quando Jon Krakauer viveu lá experiências de vida e morte.
Krakauer todo mundo sabe quem é: o cara que escreveu Na Natureza Selvagem, que virou o filme obra prima de Sean Penn. Partindo do que se encontrou sobre Alexander Supertramp, o escritor relatou a história desse menino-homem que buscou no Alaska se reconhecer vivendo com muito pouco.
No ar rarefeito veio no mesmo ano. Krakauer foi convidado pela revista Outside a escalar o Everest e escrever sobre o surgimento do alpinismo comercial na montanha. As equipes pagavam, eram clientes de empresas que lhes garantiam uma experiência no topo do mundo. Como alpinista experiente, o convite veio como a realização de um antigo sonho. Entretanto, a matéria acabou não sendo suficiente e o livro relata a experiência que culminou numa tragédia quando uma tempestade alcançou alguns dos alpinistas no cume. Diversos fatores, pequenas circunstâncias que vão alarmando e preparando um imenso problema são aí descritos numa narrativa no presente e em primeira pessoa, mas já nos antecipando um final infeliz.
O livro é uma saga; nos prende da primeira à ultima página e ficamos entre a vontade de subir a montanha e nos manter em segurança, porque à medida que se toma a decisão de ser um alpinista responsável, há ainda muito que contar com a sorte, já que tudo ao redor implica em risco de vida. Mas, muito mais profundo, o livro nos mostra as motivações das pessoas que estavam nas expedições, um pouco de suas vidas, o que os levou a assumir os riscos, o que e como enfrentaram as situações que viveram.
Ser um alpinista não é como andar de skate, correr numa bicicleta, praticar rali. Ser aplinista é constantemente se pôr à prova, vencer as barreiras da altura, as enfermidades que daí podem surgir, viver no limite do corpo e da mente. Não há espaço para muitas reflexões ou pensar nos problemas do dia a dia. Há cansaço, dor e tenacidade. A preocupação é estar bem o suficiente para os próximos passos. É essa a impressão deixada pelo livro, de pessoas guerreiras que fazem da vida, esse esporte.
A escrita é ágil e o livro acontece muito rápido. Eu fiquei levemente obcecada com a história por fazer pensar mais uma vez nas decisões que tomamos e como cada uma delas, por menor que seja, implica em resultados impactantes. São escolhas muito parecidas com as do jovem McCandles (Supertramp) na Natureza e muito presentes nesse livro, são fruto de uma coragem que domina o medo de pessoas comuns que vão aquirindo outras qualidades à medida que se enfrentam e vivem no extremo do mundo. Ali, o que deixa de ser um desafio vira uma obrigação que se demandou à própria vida e que cabe a nós refletir se nos levamos tão a sério como algumas pessoas desse relato.
*Pesquisando um pouco mais sobre o tema, verifiquei que Anatoli Boukreev, um dos alpinistas de então, também escreveu um livro contando sua versão dos fatos e, de repente também alcança uma boa leitura. Vale a pena também, depois de ler, buscar os vídeos e filmes que tratam do Everest, para ter uma idéia além de nossa imaginação, de como é a escalada, o que há ao redor, como é um acampamento base e os acampamentos avançados... enfim, concretizar o que abstraímos com nosso pequeno arsenal imaginativo.
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Por que não vemos documentários na televisão aberta? Ok, há aqueles dos animais que passam em alguns canais, nesses ainda há algum espaço, mas o público é sensivelmente menor. Por que os documentários não passam nas grandes emissoras? Não há interesse do público? Quem define o interesse do público? Ele mesmo, eu, você, a grande sociedade, o velho conjunto de fatores sócio-político-econômico-culturais? Por que o público mais diverso pára para ver a novela das oito? Por que esse público é o mesmo que está retornando a passos lentos ao cinema brasileiro (cinema mesmo, não produções de tv exibidas na telona)?
A primeira observação que me foi feita em relação ao texto anterior se transformou numa conversa que trouxe a questão: acho que você está com problemas em definir seu público. Há o público da tv aberta, o do cinema e há o público da tv fechada. Não entrando no mérito das interseções entre os grupos, há decerto uma definição de classe (em todos os seus aspectos) que define também o que se assiste. Mas, será que para nosso público de tv aberta os documentários que vêm sendo feitos não são interessantes?
Ao citar no texto anterior as relações entre os reality shows, a internet e os documentários, acreditei ou não firmei o pensamento na questão espectador, o assumi como uno, um erro. Há um espectador que aceita e participa das três categorias, mas a grande maioria talvez viva do espetáculo e realmente não encare as coisas da forma como tentei refletir. Se para o espectador só interessa o espetáculo, que acaba por ficcionalizar qualquer tentativa de criar ali uma 'realidade', por que levamos em conta a história 'real' dos personagens? Por que damos valor a quem tem uma história sofrida em detrimento de alguém mais favorecido? É evidente que num reality show como os atuais, se criam personagens a favor de quem os vende através muito mais dos recursos fora do cenário, na montagem, num roteiro do que vai ser exibido a posteriori. O que se vê é um tratamento do real e o público participa da história como o telespectador capaz de mudar a vida daqueles personagens. Mas, mais uma vez, há um direcionamento para o público que nos garante a não integridade de qualquer eleição feita por ele sobre o destino dos ocasionalmente confinados num espaço comum.
Nos documentários há um direcionamento, como num filme de ficção, como qualquer produto audiovisual. Há um roteiro, há montagem. Há, inclusive um espetáculo acontecendo, com clímax, anticlímax. Mas há um quê que o diferencia das outras produções: a forma como é contada a história, por vezes os personagens exibidos. Criou-se um mito de linguagem documental dessas de filmes de animais que se estendeu por sobre a história em qualquer coisa que se cunhe documentário e seja exibido na tv aberta. É esta a formação a que o precário público desses programas tem acesso, salvo episódicos filmes novos. Com isso, cria-se uma distância grande e elitiza o público do gênero, o tornando menor, restrito, diferenciado, fora dos objetivos de uma produção que quer abranger. Mas até essa forma específica de se fazer e ver documentários há tempos foi diversificada em outros formatos de tal forma que é apenas mais um tipo numa escala de subgêneros. E os espetáculos documentais preparados sob o conceito do real na tela de qualquer dimensão valem tanta diversão quanto uma ficção produzida com ar real, sem maiores obrigações (e sem entrar os estudos que evidenciam que até o real documental não existe, como bem sabemos). O que aparenta ser uma hipótese não muito distante é que assistir a um documentário pode ter se transformado numa tarefa escolar, como a criança que tem que ver para responder a uma prova na escola, ou um adolescente que tem um trabalho a fazer, até um universitário, pós-graduado, o que for, mas sempre como uma atividade compulsória, quase punitiva.
De qualquer forma, já que estamos propondo mais questões do que efetivas soluções, as perguntas que intrigam no momento são:
Há interesse em ver esse tipo de produção?
De onde vem o interesse? Como ele se constrói?
Por que ainda se vira a cara quando se ouve 'documentário'?
Por que se cria uma obrigação em assistí-los?
Por que esses filmes não passam na tv aberta?
São temas diversos, realizados de diversas maneiras, sob diferentes óticas, de muitos países. Sobre seu vizinho, ser vizinho, o mundo, a diversidade, uma história de vida, um fato, uma foto, um país, uma família, sua família, uma música... não são apenas didáticos ou zoológicos, botânicos, reportagens confundidas. Talvez seja o mote da fofoca, que se perde no meio do caminho. Não se pensa tanto em quem se deu bem ou mal, quem se relacionou com quem, apesar de ser possível encontrar isso tudo num filme também.
Aguardem cenas dos próximos capítulos. E comentem, se assim acharem interessante.
Um dia talvez o pensamento se conclua. Se puder ajudar, participe. Nem que seja pra confundir.
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