
Acabei o livro. Comprei sábado de tarde e acabei hoje, segunda. Toda vez que eu acabo um livro, sinto alguma coisa que me percorre o corpo, mas que na verdade é puramente mental. É como se naquele momento exato da última palavra da última frase estivesse a resposta que vínhamos buscando desde a página um. Mas não, na verdade não é isso, o negócio é que como todo filme muito bom, ficamos com aquela expressão de quem acabou de conhecer alguma coisa diferente. Mas, como todo filme que acaba e livro que se lê, quase uma tristeza nos diz: agora eu já sei, a surpresa se foi.
Esse livro veio como uma surpresa boa. Caiu em mim uma matéria sobre seu autor, como se ele fosse uma pessoa que eu poderia ser: físico, 26 anos, primeiro romance. Pensei em fazer física um dia e me perguntei como seria o primeiro romance de um físico que, não suficiente, ganhou o prêmio mais importante da literatura italiana. Comprei, comecei a ler na manhã de domingo e o levei até mais da metade até a noite. Li mais um pouco hoje de manhã, como uma necessidade urgente de dar segmento à história. Fui pro trabalho com outro livro na bolsa, na tentativa de impedir que o final daquele chegasse logo. No trabalho, um senso crítico se apoderou de mim e começou a questionar o livro, se era realmente bom, se eu não o estaria aumentando, criando ilusões em cima de uma obra menor. O negócio é que quando me vi em casa, deixei a tv de lado, o computador e fui de encontro a ele, entre a agonia de ver as páginas indo embora e a delícia da história acontecer.
A Solidão dos Números Primos, conta a história de duas crianças que se conhecem numa escola. As duas carregam uma tristeza latente fruto de tragédias que não podem ser esquecidas. E crescem ao avançar das páginas. Não vale falar mais do que isso; é uma história de duas pessoas, num universo que poderia ser o nosso, com uma linguagem simples e rápida, sem muitos adjetivos. Há um motivo muito bonito para o título.
Agora que o livro se foi e será relido em breve com mais calma, verificando e ouvindo internamente cada frase, ficou aquele vazio da vontade de falar e falar sobre ele e sentir com alguém aquela experiência naquele mundo fictício. Enquanto isso não acontece, vivo os personagens em minha cabeça, recriando as situações, entendendo seus sentimentos, até sendo um pouco como eles.
*A Solidão dos Números Primos, Paolo Giordano. Editora Rocco.
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Uma noite dessas estive numa festa de aniversário de uma pessoa que não conhecia. Fui acompanhando uma amiga em comum e aproveitei pra conhecer o bar na Lapa.
Saímos de lá, agora quatro meninas num carro dirigido por Camis, a amiga. Nossa motorista havia bebido umas cervejinhas antes, umas oito da noite e tinha parado por aí. Agora já eram 00:30. Na Praia de Botafogo a caminho de casa, uma blitz da Lei Seca.
A blitz ainda não se entendeu em estrutura. Eles sempre causam engarrafamentos surreais onde param. Paciência. Das risadas que foram minguando, o policial nos fez parar. Instantaneamente, nosso clima de curtição se transformou em tensão. Nenhuma de nós era da área de saúde para saber a duração do álcool no sangue e todas haviam bebido.
Camis foi chamada ao bafômetro. Tensa, tadinha, com razão já que era a dona do veículo, já imaginava o pior. Ao nosso redor, dezenas de carros, muitos meninos na casa dos vinte e início de trinta e um casal que chamou atenção: eram de meia idade, a senhora usava um vestido pavão em cores, maquiagem e uma cabeleira loira presa no alto da cabeça. O senhor, em eterna pose, caminhava e falava ao telefone. Na certa, os policiais pensaram: whisky. Até acho que eles foram pegos, porque não estavam com uma cara de muitos amigos. Outra figura era uma garota de top e short estilo esportista que conversava animadamente com um dos policiais. Momentos depois, uma das meninas de nosso carro lhe perguntou se tinha bebido e ela respondeu: muito.
Camis foi ao seu martírio junto comigo. Eu explicava segundo a lógica do momento: relaxe, você bebeu bem mais cedo, já tomou refrigerante e comeu coisinhas. Tudo acabará bem. E fingindo calma, fomos. Ela soprou três vezes o negócio na esperança do O.O aparecer no visor. Na maior educação e presteza, nosso algoz nos disse enfim: muito bem, senhoritas, podem ir pra casa. Na mesma calma, dissemos com o olhar: Viu? E por fim, ele: parabéns. Ela: Obrigada. Ainda que esse pudesse ser o início de uma história de amor com tantas gentilezas, acabou aí mesmo e fomos buscar nossa liberdade no carro.
A euforia continuou como havia iniciado antes da blitz, agora com a ênfase da vitória final. Ao deixar as duas meninas na primeira parada, uma delas diz: mas tem é gente bonita nessa Lei Seca, hein? À parte a surrealidade da comadre, a tensão não vale a pena. Ainda mais quando são policiais. Ainda mais no Rio. Ainda mais quando eu lembro que dois dias antes, saindo do banho de mar matinal do verão desavisado e toda enrolada na canga pra atravessar a rua, dois policiais desses que acham bonito mostrar a ponta do fuzil no carro, falam coisas quando passam por você.
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A diferença entre o jovem e o adulto é que enquanto o primeiro vai levando a vida com a sacola carregada de sonhos acreditando que pode realizar a maioria deles, o adulto resume tudo numa bolsa, já os têm sob medida e restritos à realidade que conseguiu para si. É tudo uma questão de expectativas x frustrações e sucessos. À medida que vamos crescendo e adquirindo responsabilidades e anseios cada vez maiores, vamos entendendo a dificuldade de atingir nossos sonhos e mesuramos o que queremos e o que podemos ter. Isso é crescer. Por mais frustrante que pareça, é inevitável e pode quem sabe, promover os sucessos que tanto planejamos.
Revolutionary Road é uma ficção. Dirigido por Sam Mendes, trata da vida do casal representado por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. O casal jovem, vivendo nos subúrbios americanos da classe média, se depara com sua vida e com a que pensaram em levar um dia. E surgem os conflitos naturais.
O que interessa nesse filme, além das interpretações de todos os atores e da fotografia palatável, é o enfrentamento que o tema do filme propõe. Quem nunca se questionou como a vida seria, como será? Quem nunca almejou grandes objetivos e viu que na hora H tudo toma outras dimensões? Nada contra os sonhos, que carrego vários comigo, mas há sempre frustração quando se sonha demais.
Encontramos aqui um círculo social muito bem construído que universaliza a trama: os vizinhos, os colegas de trabalho, os filhos. O mundo que cerca os protagonistas é tão importante e diz tanto quanto suas interpretações; é o contexto que incomoda, que exemplifica ao espectador a recusa à satisfação. E somos carregados em discussões ácidas construídas com uma intimidade natural do casal de atores, os encontros dos secundários com eles e vamos percebendo situações que vivemos no dia a dia. É um texto que prescinde de temporalidade, de época.
Ainda assim, Revolutionary Road é ambientado no início do século 20 sem crise americana. Uma geração de mulheres submissas, no velho conhecido espaço machista recebe este casal sedutor e inteligente que se apregoa diferente dos demais, ainda que viva a mesma realidade coletiva, da mesma forma. A insatisfação culmina num desmembramento da relação perfeita e encontramos no casal a verdade que não queremos ouvir: o contentamento e a decepção.
É também um filme que fala sobre a coragem e o desespero e vemos uma linha tênue muito bem traçada entre os extremos. Filme que nos apaixonamos de cara, com um início profundamente sedutor que nos leva pelas entrelinhas do roteiro e quase não acreditamos no rumo dos acontecimentos. Vale cada prêmio.
Ficha Técnica
Título ridículo em português: Foi Apenas um Sonho
2008, 119 min.
Diretor: Sam Mendes
Atores (que eu lembro o nome):
Kate Winslet
Leonardo DiCaprio
Kathy Bates
Michael Shannon
Marcadores: Cinema
Lá estava ela, no lugar certo, no momento certo quando mais duvidava de tudo. Enquanto procurava respostas, distraindo-se pelo caminho, estava numa noite em casa, numa dessas noites que não querem dizer nada, que são só estrelas escondidas em pingos de água.
Era uma calmaria de cochilar no sofá. Na tv uma comédia romântica das de sempre, no estômago um rebuliço sem fim e nada de pensar, mas frases rondavam em sua mente... beije sempre... viva cada dia como se fosse o último. Já pensou nisso? Viva cada dia como se fosse o último... muito difícil! Porque ela pensava que não poderia ainda viver cada dia como se fosse o último porque estava ainda se preparando para viver assim. Mas, ao tempo que vivia se preparando, nunca estava pronta para simplesmente viver sem os preparos do improviso. E que momento melhor para viver na abundância da vida que não a juventude? Mas e os recursos, as responsabilidades do dia a dia que são uma parte da vida mas nunca aquela vida que queríamos?
Neste vaivém, estrondos na janela, luzes no céu. Apreensiva da grande cidade, pensou o pior: não eram trovões apesar da chuva e do frio; seriam tiros? Mas, com luzes? Intrigada, foi à janela e quando abriu foi inundada de fogos coloridos que riscavam o céu. Era um barquinho no mar, numa noite chuvosa e vazia de pessoas, mas então cheia, imensa e inteira entre água, luz e fumaça. As cores apareciam num ritmo e transição como um reveillon particular. Imagine só! E o barquinho no raso mesmo, bem próximo do poeta, bem acessível a ela, janela única num mar de prédios. Como um contrato, uma poesia, um romance; ode a uma pessoa que sozinha, lembra de vários.
Os fogos espalharam uma alegria de confusão; sensações e não entendimento. A menina ficou deslumbrada com as luzes que sutilmente lhe traziam as noites de São João em família e, ao mesmo tempo, como num filme em que a mocinha entende sua missão, ela compreendeu aquele pedacinho de tempo e riu tranquila, feliz: não podia resolver nunca suas agonias ao mesmo tempo, mas teria tempo suficiente para se distrair e viver enquanto isso.
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É muito chato dizer 'as pessoas que passam por nossa vida' etc etc... as pessoas não estão para nos servir, para nos prestar favores ou viver apenas enquanto estão por perto. Já tem um tempo que eu fico pensando em escrever alguma coisa sobre Xande, mas não é que seja difícil, só não sei o que escrever sem diminuir tudo o que esse garoto foi pra mim.
Não queria nada melodramático, porque ele era uma das pessoas mais alegres e animadas que conheci... e que ria das minhas besteiras. Também não queria ficar tecendo trezentos elogios, mas é bom enfatizar como ele sempre foi generoso e como nos dávamos tão bem. Rolava uma certa ingenuidade, uma natureza franca e tranquila, um querer bem inato. Claro que quando alguém nos deixa só pensamos nas qualidades e minimizamos os defeitos, mas o fato talvez seja que, mais importantes do que celebrar o que ele tinha de bom era ver que seus 'defeitos' eram como os confetes em cima de um bolo... ficam doces demais, mas nem tudo é perfeito e a gente come assim mesmo.
Eu já perdi pessoas antes, tios, avós... que me deixaram uma saudade incrível e que sofri como nunca e com Xande não foi diferente, mas além de ser muito repentino, ele era como eu, jovem, saudável, com aquele clichê do futuro promissor. Não foi doença, não foi idade, não foi nada além de um acidente estúpido, fruto provável de uma irresponsabilidade de um inconseqüente.
O fato é que hoje morando sozinha penso muito nesse rapaz, nesse meu melhor amigo que topava ir a praia e escapulir do trabalho quando dava tudo errado; com quem trocava problemas e discutia soluções surreais para as coisas. Xande era meu confidente e vice-versa... conversávamos com leveza nossas crises e ríamos do nosso modo ridículamente romântico de pensar certas coisas. Sei que se ele ainda estivesse vivo, já teria vindo aqui curtir esse Rio de Janeiro comigo.
Volta e meia penso em Télis (Teles) que me veio de presente ao namorar uma amiga. Aí não tinha tempo ruim e eu sempre pude contar com ele, mesmo sem nem precisar. Xande é esse menino que me deixa saudades eternas e aquele desejo de tê-lo participando de um monte de coisas. E Xande não passou pela minha vida... fui eu que tive o prazer de viver um pouco com ele e até hoje tô puta dele ter ido embora sem se despedir. Eu não sei... mas um texto nunca fará jus a nada nem a ninguém né... mas como esse espaço é meu e quem manda nele sou eu... segue meu carinho por Xande pra sempre carregado por aí. Sorte vou ter se encontrar outro parecido com ele.
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